Archive for the ‘Teológikas’ Category

Censo e religião: algumas interrogações

sexta-feira, setembro 3rd, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Em tempos de tolerância religiosa e pluralidade, parece justo e até sadio e positivo que o Censo 2010 que já se encontra em curso no Brasil ofereça como opção para a pergunta: Qual a sua religião? dezessete opções de resposta. Na verdade, dezoito, se contarmos aqueles que não se auto-identificam com nenhuma pertença e são convidados a responder: sem religião.

O dado permite constatar não só a existência e consistência de uma diversidade imensa na pertença religiosa brasileira como a sadia convivência entre as diversas confissões, tranquilamente reconhecida pelo censo.  No entanto, alguns matizes na maneira como está elaborada o questionário permitem perceber que não há tanta neutralidade assim na proposta do censo.

Existem dois questionários: o ‘básico’ e o ‘da amostra’. No questionário básico não existe a pergunta: “Qual é a sua religião ou culto?”.  Esta, por outro lado, está presente no questionário “da amostra”.  Este segundo questionário será aplicado apenas em um número reduzido de domicílios, na proporção de um para cada dez. A religião será, portanto informada por amostragem, como acontece com as estatísticas e desde ai constará do quadro geral do censo. (mais…)

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Jafar Panahi: Fome de liberdade

quarta-feira, junho 2nd, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não é apenas por sua beleza e seu talento que as lágrimas de Juliette  Binoche comoveram o mundo quando foi anunciada a premiação do último Festival de Cannes. A causa é boa e séria.  No dia 18 de maio, La Binoche chorou ao divulgar seu novo filme, Copie  Conforme.  A razão de suas lágrimas era ter recebido a informação de que o cineasta iraniano Jafar  Panahi, preso no início de março pelo governo iraniano, havia iniciado uma  greve de fome.

Panahi, conhecido por filmes como O Balão Branco (1995) e Fora do Jogo  (2006), foi detido no dia 1º de março, acusado de “crimes  não especificados”.  Atualmente,  é acusado de estar produzindo  um filme contra o regime dos aiatolás. Talentoso cineasta, admirado no  mundo inteiro, Panahi sofre em seu país dura repressão que se estende  também a sua família e parentes mais próximos.  Seus filmes estão  proibidos no Irã há uma década, e durante os últimos quatro anos o diretor  foi impedido de exercer a profissão. (mais…)

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Festa e poesia

quinta-feira, maio 20th, 2010

Em abril, a profesora de Cultura Religiosa da PUC-Rio, Rosemary Costa, celebrou aniversário numa casa de festa da Gamboa.  O pessoal improvisou uma roda de dança que misturava mística cristã e afro – foi uma verdadeira comemoração macro-ecumênica.

Depois da festança, Tereza Cavalcanti – que sabe que gosto de poesia – me repassou e-mails que decorreram do evento.  Bruna, amiga da Rose, poetou a festa da seguinte forma:

não sei por onde começar
então parto do fim da noite
depois volto no revés pra o fim ser o começo …

cheguei em casa sozinha respirando felicidade
voltei antes da hora , parti mas não fui embora
de mim , lá ficou o melhor
ficou o que é eterno e fraterno
de lá, em mim ficou o melhor
ficou o que é tambor e amor

confirmando a inspiração de que Deus é alegria
juntando e misturando o povo em liturgia
numa roda ecumênica de festa e oração
sambei com o corpo inteiro , com a alma e o coração

conheci a verdadeira teologia
onde a paz e o respeito vem primeiro que o signo e o preconceito
onde nossa Senhora reza junto de iemanjá
onde o pão e o vinho são servidos com inhame mel e dendê
onde a alma não tem cor, e o corpo todo colorido de meia, fita e cordão
celebra a vida em plena comunhão

Tereza respondeu (“como se fosse um desafio nordestino) ao poema com outro, de Agostinha Vieira de Mello. (mais…)

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ONDE DORMIRÃO OS POBRES?

quinta-feira, abril 15th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Nunca esquecerei onde estava naquela segunda-feira quando o mundo pareceu desabar.  De vestido longo, indo para a posse na Academia Brasileira de Letras da queridíssima Cleonice Berardinelli.  Não havia táxis e quando se encontrou um, foi preciso enfrentar vários rios de lama e enxurradas de pedras para chegar à Academia. Pior ainda foi voltar para casa, façanha só compensada pelo prazer que foi escutar a fala impecável e refinada de Cleonice com sua voz que parece música.

Entrar sob um teto seguro e dormir em cama seca foi experiência de alívio até acordar na manhã seguinte com o telefonema angustiado de uma aluna que me dizia não poder sair de casa para ir à universidade fazer a prova.  Foi então que a televisão começou a mostrar a sucessão de horrores em que se transformou minha cidade, meu estado, meu povo, minha gente. Em um mar de água, lama e pedras, gente se misturava à enxurrada, pobres corpos arrastados pela força das águas juntamente com tábuas, sofás, geladeiras, televisões, bichos de pelúcia, tristes destroços do que antes eram vidas de pessoas como eu.
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“(…) mas livrai-nos do mal. Amém”.

quinta-feira, abril 8th, 2010

Por Vânia Kampff

Somos Igreja, parte deste corpo místico que tem como cabeça o próprio Cristo. Se por um lado vivemos a glória da presença vivificante do Ressuscitado,  somos também obrigados a participar, mesmo que indiretamente, deste escândalo que macula nossa comum-unidade: padres pedófilos molestaram e continuam molestando crianças. Nosso corpo está doente. Nossa unidade está quebrada. Não só porque habitam em nosso corpo místico pessoas capazes de aniquilar a inocência de uma criança, mas, sobretudo, porque ali residem aqueles que, pelo poder, se calam e destroem o Reino que deveriam anunciar. Não consigo imaginar quem está mais doente. Apodrece a alma que abusa da candura e da castidade infantil, mas também a alma que encobre o fato.

Sempre que me deparo com algo inquietante, me pergunto como Jesus agiria. Esta tem sido, ao longo da minha conversão, a deixa para o meu agir. Não que eu consiga caminhar na trilha de Jesus o tempo todo, mas sei bem qual é o Caminho, e se não o faço é porque minha liberdade teima muitas vezes em ter o seu próprio querer. Ao me indagar a reação de Jesus diante desses fatos, quase que posso ver a ira em seu rosto, quase que posso ouvir a sua voz. Assim como ecoa em meu peito a Sua Palavra. Nós, Igreja, esperamos que surja por parte do clero uma voz que clame pelos inocentes e oprimidos, esperamos por parte daqueles que assumiram o compromisso de edificar o Reino um “Basta!”. Mas nossos ouvidos permanecem vazios, e nossos corações indagam o que aconteceu com os representantes do Cristo.

Quem falará por nós? Quem será a nossa voz? É por demais ultrajante saber que esta violência silenciosa ocorreu e ainda ocorre em baixo do olhar de todos! Apenas se muda o ofensor de lugar, como peça de um tabuleiro, como se lá, naquele outro lugar, esta ofensa não fosse mais ocorrer. Quantos anos de abuso e de descaso precisamos para que uma voz se levante e diga: “Fora! Respeitem a casa do meu Pai!”, como fez Jesus ao expulsar os vendilhões do Templo. É preciso que todos estes que venderam suas almas também sejam expulsos! É preciso que o clero se manifeste claramente e se purifique de todos os que apodrecem a nossa carne.

O mínimo que podemos fazer, como Igreja de Cristo, é manifestarmos nossa indignação, lembrando que é nosso dever como cristãos levarmos o Evangelho, a mensagem salvífica de Jesus, ainda que muitas vezes nossos padres não consigam fazê-lo.

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OSCAR ROMERO: CELEBRANDO A PÁSCOA E COLHENDO OS FRUTOS

quarta-feira, abril 7th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Creio não haver melhor maneira de celebrar a Páscoa do que narrar minha recente experiência em El Salvador celebrando o 30º aniversário do martírio de Monsenhor Oscar Romero. No dia 24 de março de 1980, às 6h da tarde, o arcebispo de San Salvador  celebrava missa na capela do hospital do câncer onde residia.  Imediatamente antes da consagração, a bala desfechada por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador.  E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se  o matassem. A celebração deste aniversário de sua morte, 30 anos depois, mostra que não é só em seu país que sua memória permanece mais viva que nunca, movendo corações e mobilizando pessoas e instituições.

Milhares de pessoas assistiam ao congresso teológico e participavam das caminhadas, peregrinações e celebrações em memória do mártir salvadorenho.  Católicos e de outras igrejas cristãs.  Vindos de várias partes do mundo.

Emocionados, levavam nas camisetas o rosto do pastor assassinado e frases suas: “Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”; “Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”; “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral”. (mais…)

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Sentir na Igreja: transparência e verdade

quarta-feira, março 31st, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Para os que amamos a Igreja e temos nela e com ela um mesmo sentir, os recentes acontecimentos que a mídia não cessa de explorar minuciosa e, às vezes, um tanto cruelmente são por demais dolorosos. A meu ver, quem melhor expressou isto foi o grande escritor católico francês Georges Bernanos. Residindo na Espanha nos anos 30, assistiu, horrorizado, aos massacres que os católicos perpetravam tanto quanto os comunistas na Guerra Civil Espanhola. E escreveu desolado, referindo-se à sua amada Igreja: “É dela que tudo recebi, nada pode atingir-me senão através dela”.

Tudo que diremos aqui, portanto, tem este amor e esta dor como pano de fundo e deverá ser entendido sob esta luz e não outra. Sabemos por experiência de nosso próprio pecado quão profunda é a verdade de que a Igreja é santa e pecadora. Santa pelo Espírito que a anima e conduz; pecadora porque, incluindo-nos a todos nós, nos acolhe como somos, com nosso pecado e nossa indigência. No entanto, esse pecado não nos provoca desesperança, e sim gozo. Podemos experimentá-lo inseparável do perdão e da redenção abundantes com os quais somos ungidos pelo próprio Jesus Cristo em sua Encarnação e Páscoa. Sempre chamada à conversão, e sempre generosamente perdoada por seu Senhor, a Igreja aí permanece, há mais de vinte séculos, sobrevivente a todos os seus detratores e a todas as suas crises. (mais…)

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Que Venha!

terça-feira, janeiro 5th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Que venha o novo ano com todas as surpresas que trará.  As boas e as não tão boas. Todas surpreendem, excitam os sentidos e a imaginação, para aderir, gozar, alegrar ou para resistir, suportar, crescer.

Que venha um ano cheio de criatividade para SE aprender  a fazer do pouco muito, do nada tudo, da pequenez grandeza e da humildade plenitude.  Um ano que desate a potencialidade de fazer brotar a beleza, articular as palavras em harmoniosas frases e sonoros versos, combinar as cores em dança multi e furta-cor, que enfeitice os olhos e os faça piscar de emoção.

Que venha um ano – como todos – com nascimentos e mortes.  Nascimentos que alegrarão mulheres e homens, que farão anciãos chorar de emoção e ternura.  Diante dos recém-nascidos duros corações se abrandarão, inflexíveis ditadores se tornarão misericordiosos, almas secas pela descrença e pela aridez se tornarão umedecidas pelas lágrimas do acolhimento.  Nascimentos inesperados, não planejados e mesmo indesejados, que venham todos, pois nascer é sempre bendito e a vida é santa e sempre nova em sua força cheia de fragilidade. (mais…)

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Quem espera sempre alcança?

terça-feira, dezembro 15th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

A esperança é o tema por excelência deste tempo que antecede o Natal.  O próprio nome já diz: Advento.  Advento inspira pensar no que vem e, portanto, no que é esperado.  Olhos postos na vinda do esperado, a humanidade deseja e suspira, e a Igreja celebra e se prepara pela oração e pela penitência.

Esperar é preciso, nos diz o tempo litúrgico e a profundidade de nossos afetos.  Mas quem espera deseja alcançar o que espera. E quem espera…alcança sempre? Ou pelo menos às vezes? Inspirados pela canção de Gilberto Gil, afirmamos: “Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança” recordando a inesquecível interpretação de Elis e Jair Rodrigues.

Os recentes episódios dos exames de ingresso no ensino superior no Brasil – notadamente os lamentáveis ocorridos com o ENEM – nos dizem, por um lado, como o esperar move mentes e corações e, por outro, como o defraudar da espera pode ser prejudicial e daninho para toda uma geração que apostara em um exame a partir do qual enxergava a construção de seu futuro profissional e que determinaria todo o desenrolar de sua vida.   (mais…)

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Mártires de El Salvador: 20 anos depois

segunda-feira, dezembro 7th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Foi Leonardo Boff quem me anunciou, com voz embargada, há exatos vinte anos: «Mataram Ellacuria». Custei a realizar o que me dizia. Pouco a pouco, saí de meu espanto e ouvi minha voz perguntar, longe e apesar de mim mesma: “E Jon Sobrino?”

Leonardo me contou que escapara por estar na Tailândia, dando um curso que lhe havia pedido. Senti alívio de saber poupado o que era mais amigo, mais próximo, embora com enorme perplexidade diante do acontecido. Naquela ocasião, conhecia pouco sobre Ellacuria. Só lembrava de sua tremenda simpatia e brilhante inteligência quando o vira rapidamente em Madri, aonde fora acompanhando Lina Boff, colega de teologia e irmã de Leonardo, que iria participar de um programa na TV espanhola. Encantou-me aquele basco de sorriso fino e tiradas brilhantes, que falava com paixão e exatidão sobre a opção pelos pobres e a teologia da libertação.

Corria o ano de 1989 e aquele era o assunto em pauta.  A Teologia da Libertação era discutida e controvertida, mas chamava atenção e atraía os olhares.  E Ellacuria, como reitor da Universidade Católica de El Salvador, não perdia oportunidade de viajar e ocupar todas as tribunas que se apresentavam para falar da grande prioridade em que consistia, naquele momento, a libertação de todos os oprimidos do mundo. Lembrava-me do grande banner que vira com sua foto, microfone na mão e gesto inflamado com o braço levantado, dizendo a célebre frase: “É preciso reverter a história e lançá-la em outra direção.” (mais…)

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