Archive for the ‘Artigos das Teológikas’ Category

Censo e religião: algumas interrogações

sexta-feira, setembro 3rd, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Em tempos de tolerância religiosa e pluralidade, parece justo e até sadio e positivo que o Censo 2010 que já se encontra em curso no Brasil ofereça como opção para a pergunta: Qual a sua religião? dezessete opções de resposta. Na verdade, dezoito, se contarmos aqueles que não se auto-identificam com nenhuma pertença e são convidados a responder: sem religião.

O dado permite constatar não só a existência e consistência de uma diversidade imensa na pertença religiosa brasileira como a sadia convivência entre as diversas confissões, tranquilamente reconhecida pelo censo.  No entanto, alguns matizes na maneira como está elaborada o questionário permitem perceber que não há tanta neutralidade assim na proposta do censo.

Existem dois questionários: o ‘básico’ e o ‘da amostra’. No questionário básico não existe a pergunta: “Qual é a sua religião ou culto?”.  Esta, por outro lado, está presente no questionário “da amostra”.  Este segundo questionário será aplicado apenas em um número reduzido de domicílios, na proporção de um para cada dez. A religião será, portanto informada por amostragem, como acontece com as estatísticas e desde ai constará do quadro geral do censo. (mais…)

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ONDE DORMIRÃO OS POBRES?

quinta-feira, abril 15th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Nunca esquecerei onde estava naquela segunda-feira quando o mundo pareceu desabar.  De vestido longo, indo para a posse na Academia Brasileira de Letras da queridíssima Cleonice Berardinelli.  Não havia táxis e quando se encontrou um, foi preciso enfrentar vários rios de lama e enxurradas de pedras para chegar à Academia. Pior ainda foi voltar para casa, façanha só compensada pelo prazer que foi escutar a fala impecável e refinada de Cleonice com sua voz que parece música.

Entrar sob um teto seguro e dormir em cama seca foi experiência de alívio até acordar na manhã seguinte com o telefonema angustiado de uma aluna que me dizia não poder sair de casa para ir à universidade fazer a prova.  Foi então que a televisão começou a mostrar a sucessão de horrores em que se transformou minha cidade, meu estado, meu povo, minha gente. Em um mar de água, lama e pedras, gente se misturava à enxurrada, pobres corpos arrastados pela força das águas juntamente com tábuas, sofás, geladeiras, televisões, bichos de pelúcia, tristes destroços do que antes eram vidas de pessoas como eu.
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“(…) mas livrai-nos do mal. Amém”.

quinta-feira, abril 8th, 2010

Por Vânia Kampff

Somos Igreja, parte deste corpo místico que tem como cabeça o próprio Cristo. Se por um lado vivemos a glória da presença vivificante do Ressuscitado,  somos também obrigados a participar, mesmo que indiretamente, deste escândalo que macula nossa comum-unidade: padres pedófilos molestaram e continuam molestando crianças. Nosso corpo está doente. Nossa unidade está quebrada. Não só porque habitam em nosso corpo místico pessoas capazes de aniquilar a inocência de uma criança, mas, sobretudo, porque ali residem aqueles que, pelo poder, se calam e destroem o Reino que deveriam anunciar. Não consigo imaginar quem está mais doente. Apodrece a alma que abusa da candura e da castidade infantil, mas também a alma que encobre o fato.

Sempre que me deparo com algo inquietante, me pergunto como Jesus agiria. Esta tem sido, ao longo da minha conversão, a deixa para o meu agir. Não que eu consiga caminhar na trilha de Jesus o tempo todo, mas sei bem qual é o Caminho, e se não o faço é porque minha liberdade teima muitas vezes em ter o seu próprio querer. Ao me indagar a reação de Jesus diante desses fatos, quase que posso ver a ira em seu rosto, quase que posso ouvir a sua voz. Assim como ecoa em meu peito a Sua Palavra. Nós, Igreja, esperamos que surja por parte do clero uma voz que clame pelos inocentes e oprimidos, esperamos por parte daqueles que assumiram o compromisso de edificar o Reino um “Basta!”. Mas nossos ouvidos permanecem vazios, e nossos corações indagam o que aconteceu com os representantes do Cristo.

Quem falará por nós? Quem será a nossa voz? É por demais ultrajante saber que esta violência silenciosa ocorreu e ainda ocorre em baixo do olhar de todos! Apenas se muda o ofensor de lugar, como peça de um tabuleiro, como se lá, naquele outro lugar, esta ofensa não fosse mais ocorrer. Quantos anos de abuso e de descaso precisamos para que uma voz se levante e diga: “Fora! Respeitem a casa do meu Pai!”, como fez Jesus ao expulsar os vendilhões do Templo. É preciso que todos estes que venderam suas almas também sejam expulsos! É preciso que o clero se manifeste claramente e se purifique de todos os que apodrecem a nossa carne.

O mínimo que podemos fazer, como Igreja de Cristo, é manifestarmos nossa indignação, lembrando que é nosso dever como cristãos levarmos o Evangelho, a mensagem salvífica de Jesus, ainda que muitas vezes nossos padres não consigam fazê-lo.

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OSCAR ROMERO: CELEBRANDO A PÁSCOA E COLHENDO OS FRUTOS

quarta-feira, abril 7th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Creio não haver melhor maneira de celebrar a Páscoa do que narrar minha recente experiência em El Salvador celebrando o 30º aniversário do martírio de Monsenhor Oscar Romero. No dia 24 de março de 1980, às 6h da tarde, o arcebispo de San Salvador  celebrava missa na capela do hospital do câncer onde residia.  Imediatamente antes da consagração, a bala desfechada por um atirador de elite escondido atrás da porta traseira da capela atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador.  E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria, se  o matassem. A celebração deste aniversário de sua morte, 30 anos depois, mostra que não é só em seu país que sua memória permanece mais viva que nunca, movendo corações e mobilizando pessoas e instituições.

Milhares de pessoas assistiam ao congresso teológico e participavam das caminhadas, peregrinações e celebrações em memória do mártir salvadorenho.  Católicos e de outras igrejas cristãs.  Vindos de várias partes do mundo.

Emocionados, levavam nas camisetas o rosto do pastor assassinado e frases suas: “Se me matarem, ressuscitarei no povo salvadorenho”; “Uma Igreja que não sofre perseguições, e que está desfrutando dos privilégios e o apoio da burguesia não é a verdadeira Igreja de Jesus Cristo”; “Frente à ordem de matar seus irmãos deve prevalecer a Lei de Deus, que afirma: NÃO MATARÁS! Ninguém deve obedecer a uma lei imoral”. (mais…)

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Sentir na Igreja: transparência e verdade

quarta-feira, março 31st, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Para os que amamos a Igreja e temos nela e com ela um mesmo sentir, os recentes acontecimentos que a mídia não cessa de explorar minuciosa e, às vezes, um tanto cruelmente são por demais dolorosos. A meu ver, quem melhor expressou isto foi o grande escritor católico francês Georges Bernanos. Residindo na Espanha nos anos 30, assistiu, horrorizado, aos massacres que os católicos perpetravam tanto quanto os comunistas na Guerra Civil Espanhola. E escreveu desolado, referindo-se à sua amada Igreja: “É dela que tudo recebi, nada pode atingir-me senão através dela”.

Tudo que diremos aqui, portanto, tem este amor e esta dor como pano de fundo e deverá ser entendido sob esta luz e não outra. Sabemos por experiência de nosso próprio pecado quão profunda é a verdade de que a Igreja é santa e pecadora. Santa pelo Espírito que a anima e conduz; pecadora porque, incluindo-nos a todos nós, nos acolhe como somos, com nosso pecado e nossa indigência. No entanto, esse pecado não nos provoca desesperança, e sim gozo. Podemos experimentá-lo inseparável do perdão e da redenção abundantes com os quais somos ungidos pelo próprio Jesus Cristo em sua Encarnação e Páscoa. Sempre chamada à conversão, e sempre generosamente perdoada por seu Senhor, a Igreja aí permanece, há mais de vinte séculos, sobrevivente a todos os seus detratores e a todas as suas crises. (mais…)

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Quem espera sempre alcança?

terça-feira, dezembro 15th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

A esperança é o tema por excelência deste tempo que antecede o Natal.  O próprio nome já diz: Advento.  Advento inspira pensar no que vem e, portanto, no que é esperado.  Olhos postos na vinda do esperado, a humanidade deseja e suspira, e a Igreja celebra e se prepara pela oração e pela penitência.

Esperar é preciso, nos diz o tempo litúrgico e a profundidade de nossos afetos.  Mas quem espera deseja alcançar o que espera. E quem espera…alcança sempre? Ou pelo menos às vezes? Inspirados pela canção de Gilberto Gil, afirmamos: “Quem espera sempre alcança/ Três vezes salve a esperança” recordando a inesquecível interpretação de Elis e Jair Rodrigues.

Os recentes episódios dos exames de ingresso no ensino superior no Brasil – notadamente os lamentáveis ocorridos com o ENEM – nos dizem, por um lado, como o esperar move mentes e corações e, por outro, como o defraudar da espera pode ser prejudicial e daninho para toda uma geração que apostara em um exame a partir do qual enxergava a construção de seu futuro profissional e que determinaria todo o desenrolar de sua vida.   (mais…)

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Mártires de El Salvador: 20 anos depois

segunda-feira, dezembro 7th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Foi Leonardo Boff quem me anunciou, com voz embargada, há exatos vinte anos: «Mataram Ellacuria». Custei a realizar o que me dizia. Pouco a pouco, saí de meu espanto e ouvi minha voz perguntar, longe e apesar de mim mesma: “E Jon Sobrino?”

Leonardo me contou que escapara por estar na Tailândia, dando um curso que lhe havia pedido. Senti alívio de saber poupado o que era mais amigo, mais próximo, embora com enorme perplexidade diante do acontecido. Naquela ocasião, conhecia pouco sobre Ellacuria. Só lembrava de sua tremenda simpatia e brilhante inteligência quando o vira rapidamente em Madri, aonde fora acompanhando Lina Boff, colega de teologia e irmã de Leonardo, que iria participar de um programa na TV espanhola. Encantou-me aquele basco de sorriso fino e tiradas brilhantes, que falava com paixão e exatidão sobre a opção pelos pobres e a teologia da libertação.

Corria o ano de 1989 e aquele era o assunto em pauta.  A Teologia da Libertação era discutida e controvertida, mas chamava atenção e atraía os olhares.  E Ellacuria, como reitor da Universidade Católica de El Salvador, não perdia oportunidade de viajar e ocupar todas as tribunas que se apresentavam para falar da grande prioridade em que consistia, naquele momento, a libertação de todos os oprimidos do mundo. Lembrava-me do grande banner que vira com sua foto, microfone na mão e gesto inflamado com o braço levantado, dizendo a célebre frase: “É preciso reverter a história e lançá-la em outra direção.” (mais…)

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O CAIM DE SARAMAGO E A VIOLÊNCIA NA BÍBLIA

terça-feira, novembro 24th, 2009

Por  Maria Clara Lucchetti Bingemer

É na história primeva que podemos encontrar o início da trajetória da violência na Bíblia e mais diretamente no relato de Caim e Abel, em Gênesis 4.  No texto, Caim é o primeiro homem nascido. É recebido por Eva como dom de Deus. É à Sua benevolência que a primeira mulher deve a maternidade. É a primeira experiência de maternidade no mundo, o que vem modificar a condição feminina tornando-a, mais do que serva e companheira de um marido, capaz de ser mãe dos seres humanos.

O texto bíblico apresenta a seguir os dois irmãos, Caim e Abel, com ocupações diferentes. Caim está ligado à prática agrícola e Abel à pastoril. Esta diferença de atividades vai caracterizar uma diferença de atitudes, pois no desenvolvimento de sua vocação individual, o ser humano cria perspectivas próprias a partir de sua experiência com o meio. No caso do relato bíblico, Caim e Abel, irão demonstrar práticas religiosas também diferentes, o que pode indicar óticas diversas no âmbito religioso-moral, em consequência das próprias atividades desenvolvidas. A divisão em duas funções distintas, conduz também para distintos sacrifícios, para distintas práticas religiosas. Cada culto pertence a uma cultura. São, portanto, dois altares e dois cultos. (mais…)

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Jejum: Uma prática em desuso?

domingo, novembro 8th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Dizem que, enquanto um terço da humanidade passa fome, há pelo menos outro terço que come mais do que o necessário e sofre de obesidade.  E há outra expressiva quantidade de pessoas que vive de dieta, fazendo regime para emagrecer, correndo atrás da última dieta para adquirir o corpinho das modelos que vê na televisão.  Sem falar no outro grupo de pessoas que adoece e morre de anorexia.

Por outro lado, há uma prática que muitos crêem estar em desuso, mas que na realidade é praticada por mais gente do que se imagina.  Trata-se do jejum, praticado por motivos religiosos, sobretudo, mas também éticos e políticos.

Qual o sentido de jejum?  O dicionário nos ajuda com algumas definições: abstinência ou abstenção total ou parcial de alimentação em determinados dias, por penitência ou prescrição religiosa ou médica; privação ou abstenção de alguma coisa.

Dentro de certas escolas filosóficas greco-romanas e fraternidades religiosas jejuar, como um aspecto de ascese, foi aproximado à convicção de que a humanidade tinha experimentado um estado primordial de perfeição que foi perdida por uma transgressão original. Por várias práticas ascéticas como jejuar, praticar a pobreza voluntária e a penitência, o indivíduo poderia ser restabelecido a um estado onde a comunicação e a união com o divino foram tornadas possíveis novamente. (mais…)

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Política e genero: Duas mulheres na corrida presidencial?

quarta-feira, outubro 28th, 2009

Por Maria Clara Bingemer

Já lá se vai quase um século inteiro desde que se assiste ao fenômeno da emergência da mulher em todos os setores da vida social, política, cultural do mundo ocidental. E o evento desta emergência é percebido pelos principais setores desta mesma sociedade como um dos fatores mais importantes e relevantes em termos de mutação de seu perfil contemporâneo. A metade feminina da humanidade, que vai saindo da sombra e da invisibilidade após tantos séculos, vem merecendo, por parte de especialistas das mais diversas áreas, atenção e interesse. Bastaria, para comprovar esta afirmação, a grande quantidade de pesquisas, escritos e eventos organizados em torno do tema, relacionando-o com as mais diversas áreas do saber , do conhecimento e da esfera pública.Antes confinada ao privado e ao doméstico, a mulher vem ocupando espaços cada vez mais importantes na esfera pública tendo chegado, já no século XX,  a ocupar altos cargos de governo . Isto se deu de forma mais patente nos países nórdicos da Europa, como Finlandia, Noruega.  Mas são dignos denota igualmente os casos de ministras de estado nos Estados Unidos.  Na América Latina, os casos da presidente Michele Bachellet, que logo termina seu mandato, é um bom exemplo de estadista formada na base e na luta diuturna pelos direitos humanos que chega ao poder por eleição democrática e sabe manter seu país na corrida pelo desenvolvimento e por uma vida melhor para a população. (mais…)

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