“Por que os diversos componentes que animam a Igreja, divididos em tantos aspectos, têm porém em comum um estupefaciente silêncio sobre a mulher?”. A historiadora Emma Fattorini e a diretora Liliana Cavani abrem assim a sua intervenção da última edição dominical do jornal Sole 24 Ore de 2009, com a qual lançam a ideia de um Sínodo sobre a mulher.

A reportagem é de Nicoletta Tiliacos, publicada no jornal Il Foglio, 29-12-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele é necessário, escrevem, para dar seguimento às grandes expectativas – que até agora “não se pode dizer que tenham sido honradas” – suscitadas, em seu tempo, tanto pela encíclica “Mulieris dignitatem” (1988) de João Paulo II, quanto pela Carta sobre o tema da colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo, endereçada aos bispos, em 2004, pelo então cardeal Joseph Ratzinger.

De uma parte, a afirmação wojtyliana do “gênio feminino”, de outra a “estupefaciente e substancial ausência das mulheres – diz Emma Fattorini ao Il Foglio – em momentos importantes como no encontro sobre Deus organizado no início de dezembro pelo Comitê para o Projeto Cultural da CEI [Conferência dos Bispos Italianos]. No debate sobre a bioética, por exemplo, essa ausência das mulheres – a incapacidade mesmo de pronunciar a palavra ‘mulher’ – significa um empobrecimento absoluto. É uma rendição justamente a essa abstração que todos, aparentemente, querem combater”.

Exatamente nos dias daquele encontro, nasceu a ideia de chamar a atenção sobre as promessas não cumpridas. “Liliana Cavani e eu – continua Fattorini – pedimos por isso uma audiência ao patriarca de Veneza, Angelo Scola, interlocutor atento e sensível, como demonstra o seu livro sobre Maria, com o qual falamos longamente. Há poucos dias, Scola concedeu a Marina Terragni, no jornal Corriere della Sera, uma entrevista sobre o tema da diferença. Naquela ocasião, ele disse que ‘Jesus ouviu escandalosamente as muilheres. E a atenção do Santo Padre não falta. Se há um problema a esse propósito na Igreja é o mesmo que existe na política e na sociedade: e é o fato de que a questão do feminino não é pensada até o fundo”.

Sobre o porquê de tantas resistências, Fattorini acha que há “um elemento de medo. A ideia de que logo que se der um pouco de espaço às mulheres, elas reivindicarão o sacerdócio. Mas é um álibi. Por isso, explicitamos na intervenção que não é isso o que se quer. E depois há uma atitude toda de cabeça, desencarnada. É preciso também uma sede sapiencial que tenha presente também o corpo, que leve em conta os sujeitos. E se se admitem os sujeitos, admite-se o corpo, que é corpo de mulher e de homem”.

A historiadora Lucetta Scaraffia compartilha a ideia de que é necessário chamar a atenção sobre as mulheres na Igreja, “mas mais do que um Sínodo, que significaria mais uma vez homens que falam sobre mulheres, pensaria em um encontro verdadeiro, talvez promovido pela organização das superioras das congregações femininas. Dois terços dos religiosos católicos são mulheres. São elas que, antes de tudo, devem contar o que fazem e o que propõem. Certamente não para reivindicar o sacerdócio, mas para ter voz no capítulo da vida da Igreja”.

“Hoje, a irmã deve ser fermento cultural”, disse a irmã Maria Barbagallo (durante 12 anos superiora-geral das cabrinianas), entrevistada no dia 21 de dezembro pelo L’Osservatore Romano: “E, de fato, o que falta é justamente a contribuição cultural das mulheres – acrescenta Lucetta Scaraffia –, já que são elas que fazem a Igreja ir adiante. É importante também a voz das leigas, mas acho que é fundamental que se comece a ouvir a voz das religiosas. Muitas vezes, a sua visão é diferente da dos homens, porque entram em relação de forma diferente com as situações – acrescenta Scaraffia –, além do fato de que, não tendo que fazer carreira como bispos e cardeais, geralmente são mais livres dentro da Igreja. Muito frequentemente, pelo contrário, são consideradas como assistentes ou empregadas. Essas mulheres têm muitíssimas coisas a dizer sobre temas sobre os quais a Igreja discute, enquanto agora a sua voz não é ouvida”.

Silvia Guidi, jornalista do L’Osservatore Romano e “memores domini” (leiga que assume as recomendações evangélicas de pobreza, castidade e obediência) acha que, “para enfrentar o tema urgente das mulheres na Igreja, mais do que um Sínodo, seria importante uma encíclica ou outros instrumentos do magistério. Mas, a meu ver, não contemos com um déficit cultural. Bastaria voltar à história da Igreja para valorizar as figuras femininas que houve e para entender o papel que devem ter na Igreja de hoje e do futuro”.

(Fonte IHU)

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