A quem você está servindo? “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24).
Por Leonardo Reis
| “- Tá vendo essa mansão sensacional? Comprei com o dinheiro desviado do hospital. - Ah! E o meu cofre cheio de dólar? É o dinheiro que seria pra fazer mais uma escola. - Precisa ver minha fazenda! Comprei só com o dinheiro da merenda! - E o meu filhão? Um milhão só de mesada! E tudo com o dinheiro das crianças abandonadas. - E a minha esposa não me leva à falência Porque eu tapo esse buraco com o rombo da Previdência. - Vossa excelência, cê não viu meu avião? Comprei com uma verba que era pra construir prisão! - E a superlotação? - Problema do povão! Não temos imunidade? Pra nós não pega não. (…) A miséria só existe porque tem corrupção Desemprego só aumenta porque tem corrupção Violência só explode porque tem tanta miséria e desemprego Porque tem tanta corrupção!” (Pega Ladrão! – Gabriel O Pensador/Tiago “Mocotó”/Aninha Lima/Liminha) |
“Grana suja, grana justa Grana fácil, grana curta Grana pra você comprar ajuda Grana sexy, grana vídeo Grana moda, grana vício Grana pra você comprar destinos Pedágio, plágio Quanto vale o show? |
Como em diversos temas relacionados com os princípios morais cristãos, temos a tendência de reduzi-los ao pragmatismo, tentando criar regras a serem seguidas, não indo na essência do princípio. Agarramo-nos com todas as nossas forças as regras e as seguimos, sem questionar a sua razão e nem nos preocuparmos se, de outra forma, não estaremos indo contra a essência dessa própria regra. Assim também pode acontecer quando falamos de dinheiro. Muito de nós, provavelmente, diria que não serve ao dinheiro, uma vez que não se vê tão apegado ao dinheiro e faz até doações e caridades. Não servir ao dinheiro é apenas isso? Creio que não. Grande parte dos nossos políticos também fazem doações e obras de caridade e, pelos resultados e escândalos que vemos a todo instante na imprensa, não diria que eles estão servindo a Deus.
Não creio que o dinheiro seja algo ruim em si mesmo e muito menos que a única maneira de seguir a Deus seja viver de esmolas, mendigando pelas ruas, usando trapos. Ao contrário, até questiono essa forma de vida, uma vez que a qualidade de vida fica extremamente precária, influenciando, sobretudo, na saúde das pessoas que optam por esta forma de viver. Deus é o Deus da vida, e da vida em abundância.
Então, por que não é possível servir a Deus e ao dinheiro? Há diversas formas de servir ao dinheiro, e uma delas é a corrupção. A corrupção vai completamente de encontro ao projeto de Deus, não apenas pelo fato de se pegar algo que não é seu (que é algo moralmente errado), mas sobretudo pelas suas consequências. E nós sabemos e sentimos muito bem as consequências da corrupção, como ilustre bem a música “Pega Ladrão” do Gabriel O Pensador: injustiças sociais, precariedade no atendimento médico nos hospitais públicos causando várias mortes, precariedade na educação, aumento do desemprego, da fome, da miséria e da violência. Tais consequências degradam a vida de milhares de pessoas e quebra um princípio fundamental deixado por Jesus: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22, 39).
Infelizmente essa mentalidade da corrupção, que causa tanto mal, já faz parte da cultura do nossa sociedade. Quantas pessoas não “molham a mão” de um guarda para ele dar uma aliviada ou não apreender o seu veículo que estava com a documentação atrasada? Quantas pessoas deixaram passar quando na hora de pagar uma conta perceberam que estava faltando alguma coisa ou não devolveram um troco que veio errado para mais? Quantas pessoas não usam carteirinhas de estudante falsificada só para pagar meia? Quantas pessoas não disseram a seu filho, se você se comportar direitinho vai ganhar um brinquedo?
Podemos ver essa servidão ao dinheiro não somente na corrupção, mas também na exploração de trabalhadores, que muitas das vezes têm jornadas desumanas e recebem um salário insignificante; em pessoas que trabalham mais do que o necessário para o bem estar seu e de sua família só para acumular mais dinheiro, ficando escravas do trabalho; e também no âmbito religioso quando se prometem bênçãos e lugares no céu em troca de dinheiro, explorando a boa fé e a carência do povo, bem como, as cobranças exorbitantes para celebrações de casamentos e outras celebrações litúrgicas e pouco, ou quase nenhuma, opção comunitária sem custo algum.

Seguindo essa mentalidade de servir somente ao dinheiro, que na verdade, usamos o dinheiro apenas como instrumento para o nosso egoísmo e tirar vantagens, não somos capazes de ir ao encontro do outro de forma autêntica, nos fechando em nós mesmos, e aí é que está o grande problema. Trilhando nessa ótica do egoísmo podemos chegar ao extremo de mensurar tudo, passamos a pensar e agir segundo o pensamento de quanto isso vai custar. Quanto vai me custar namorar aquela pessoa? Será que terei vantagem em ser amigo daquela pessoa? Ou seja, tudo na vida passa a ser visto pela ótica do custo financeiro apenas.
Sim, essa Campanha da Fraternidade desse ano nos convida e nos interpela em diversos aspectos. Então, nesse período de quaresma, que já começou na quarta-feira de cinzas, possamos meditar profundamente todas as possibilidades nas quais, mesmo sem pensar ou querer, estamos servindo ao dinheiro e, certamente, cometendo alguma injustiça e não servindo a Deus. Não vamos ficar na análise simples e superficial desse tema, vamos transformá-lo num momento oportuno de conversão.
