Kasper: coragem e firmeza no ecumenismo
Por Antonio Carlos Ribeiro
A atuação do Cardeal Walter Kasper, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, deixa marca singular nos esforços ecumênicos nesta primeira década do século XXI. O último encontro deste organismo foi realizado de 8 a 10 de fevereiro, às vésperas de deixar a função, com a presença de lideranças com clareza teológica e mentalidade ecumênica das igrejas Católica, Anglicana, Luterana, Metodista e Reformada, serviu para avaliação e prospecção do projeto ecumênico.
A atuação de Kasper relembra a de bispos teólogos brasileiros como Aloísio Lorscheider, Paulo Evaristo Arns e Luciano Mendes de Almeida em outras circunstâncias, também adversas, lutando pelas vidas de perseguidos políticos do regime, sendo vítimas dos latifundiários e dos teólogos-as, das sanções que variavam da advertência do bispo local, ao processo disciplinar com perda da cátedra e silêncio obsequioso.
Ao somar cultura teológica, atuação diplomática e determinação legítima, esse bispo alemão conseguiu movimentar-se na Cúria Romana, nos organismos ecumênicos de Genebra e no relacionamento com os ortodoxos mostrando zelo pelas conquistas e aberturas nesta área, ao mesmo tempo que pelas flexibilizações que tiveram que suportar as críticas de fora à postura pré-moderna, às propostas conciliadoras e à manutenção da diferença.
Mesmo quando defendeu os crucifixos e a menção ao Deus cristão nas sociedades europeias, não o fez de forma arrogante ou majestática, preferindo a busca de bons parceiros, na Igreja a que serve e entre as que adotam a disposição de caminhada conjunta. Ele sabe que o diálogo com a sociedade se faz através de parcerias. Com saber e com experiência, aprendeu a não atribuir à pompa e circunstância um valor maior que o momentâneo, sobretudo quando distanciadas dos problemas comuns à condição humana.
O encontro foi mais um encontro de trabalho produtivo, com a maior parte do tempo em atividade informal, sem documentação excessiva e a obrigação do consenso como atar os grandes dissensos. Houve a apresentação da palestra do anfitrião e quatro reações, sem discursos nem tomadas de posição, que ficam na superfície, enquanto as estruturas conservam as diferenças identitárias.
O tom de lamento da comunidade ecumênica é o já sentido “canto de cisne” do Cardeal Kasper, ao menos o início da despedida deste que foi considerado um dos melhores bispos-teólogos de sua geração, e tido como um líder Católico “moderado”, no escritório ecumênico que lidera desde 2001. John L. Allen Jr. observa que ele “tem tido o azar de ser um líder ecumênico talentoso durante um período que alguns, pelo menos, perceberam como um grande mal-estar ecumênico. Enquanto acordos inovadores têm sido negociados com várias igrejas cristãs, quando a poeira baixava, normalmente não havia clareza de qual autoridade, na verdade, desfrutava destes acordos dentro das igrejas que os assinavam”, ao mesmo tempo em que o debate da ordenação de mulheres e da união de pessoas do mesmo sexo não se viabilize.
Kasper fez diferença nesse contexto quando publicou em seu nome o livro Colhendo os Frutos, como um trabalho pessoal e não como documento oficial do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, assumindo posturas claras diante da perspectiva oficial, escapando à revisão da Congregação para a Doutrina da Fé e da Secretaria do Estado, e gerando especulações quanto à reação. Por isso, adiantou-se informando que encaminhou a todos os ministérios da Cúria Romana, “e eles, como o próprio Papa, expressaram gratidão e apreço”.
A obra faz um balanço do que foi alcançado, destacando as conquistas ecumênicas pouco conhecidas das últimas décadas – incluída a Declaração Conjunta sobre Fé e Graça, assinada com as igrejas luteranas através da Federação Luterana Mundial em 1999 – bem como criar perspectivas para os avanços. Um esforço já assumido é o de encontrar uma nova geração de líderes ecumênicos.
Kasper pontuou em sua palestra que o sucesso do movimento ecumênico no século XX oferece “um contraponto de reconciliação e unidade às forças destrutivas do mal e da violência”, e que isso pode ser testemunhado ao longo do último século. O “respeito mútuo, confiança e amizade”, desenvolvido ao longo destes anos representa a fruta “verdadeira” do movimento ecumênico. “Não há razão para estar desencorajado ou resignado, como muitos estão hoje”, lembrou o teólogo alemão. Ele apontou para uma “nova fase do diálogo”, lembrando que ele “pode ser menos entusiástico do que o diálogo da nossa juventude, mas será mais maduro e não menos imbuído de coragem e esperança”.
“Contudo, se há uma coisa que aprendi na minha vida acadêmica”, relembrou, “é que uma vez que o problema é claramente identificado, ele está meio resolvido”. A partir dessa premissa entende que o “ecumenismo espiritual” é o verdadeiro coração do movimento, denunciando uma ênfase exagerada na dimensão “horizontal”, quando se pensa nos limites confessionais. Mas enfatiza que comunhão estrutural completa arrisca ignorar a dinâmica “vertical” de se unir ao movimento em direção à Cristo. E nesta questão, todas as igrejas precisam concordar na sua necessidade de “arrependimento e renovação”, incluída a Católica.
Sem medo de tirar conclusões, admite que “há feridas originadas da divisão e também há feridas derivadas do pecado na Igreja Católica”, admitindo que esta “não é perfeita e está na necessidade de renovação constante”. Neste ponto, refere-se à Declaração Dominus Iesus, publicada em 2000 pela Congregação para a Doutrina da Fé, cuja linguagem medieval causou uma tempestade de controvérsia ecumênica ao reafirmar a doutrina tradicional de que a Igreja Católica é a igreja de Cristo. E disparou definitivo: foi um “erro”, especialmente ao não deixar claro que o catolicismo não pretendia um fechamento ao diálogo ecumênico.
E conclui, afrontando o conhecido aforismo extra ecclesiam nula salus, ao insistir na “abertura”, baseado na convicção de que há importantes elementos da Igreja de Cristo fora da Igreja Católica visível. Confronta-se com o documento assinado pelo Cardeal Ratzinger e pelo Monsenhor Tarcísio Bertone, afirmando que “não há um vazio eclesiástico fora da Igreja Católica”, conclusão que dá base para a ideia de um “catecismo ecumênico”, elaborado em consulta com as várias tradições cristãs, apostou.
