Por Vânia Kampff
Somos Igreja, parte deste corpo místico que tem como cabeça o próprio Cristo. Se por um lado vivemos a glória da presença vivificante do Ressuscitado, somos também obrigados a participar, mesmo que indiretamente, deste escândalo que macula nossa comum-unidade: padres pedófilos molestaram e continuam molestando crianças. Nosso corpo está doente. Nossa unidade está quebrada. Não só porque habitam em nosso corpo místico pessoas capazes de aniquilar a inocência de uma criança, mas, sobretudo, porque ali residem aqueles que, pelo poder, se calam e destroem o Reino que deveriam anunciar. Não consigo imaginar quem está mais doente. Apodrece a alma que abusa da candura e da castidade infantil, mas também a alma que encobre o fato.
Sempre que me deparo com algo inquietante, me pergunto como Jesus agiria. Esta tem sido, ao longo da minha conversão, a deixa para o meu agir. Não que eu consiga caminhar na trilha de Jesus o tempo todo, mas sei bem qual é o Caminho, e se não o faço é porque minha liberdade teima muitas vezes em ter o seu próprio querer. Ao me indagar a reação de Jesus diante desses fatos, quase que posso ver a ira em seu rosto, quase que posso ouvir a sua voz. Assim como ecoa em meu peito a Sua Palavra. Nós, Igreja, esperamos que surja por parte do clero uma voz que clame pelos inocentes e oprimidos, esperamos por parte daqueles que assumiram o compromisso de edificar o Reino um “Basta!”. Mas nossos ouvidos permanecem vazios, e nossos corações indagam o que aconteceu com os representantes do Cristo.
Quem falará por nós? Quem será a nossa voz? É por demais ultrajante saber que esta violência silenciosa ocorreu e ainda ocorre em baixo do olhar de todos! Apenas se muda o ofensor de lugar, como peça de um tabuleiro, como se lá, naquele outro lugar, esta ofensa não fosse mais ocorrer. Quantos anos de abuso e de descaso precisamos para que uma voz se levante e diga: “Fora! Respeitem a casa do meu Pai!”, como fez Jesus ao expulsar os vendilhões do Templo. É preciso que todos estes que venderam suas almas também sejam expulsos! É preciso que o clero se manifeste claramente e se purifique de todos os que apodrecem a nossa carne.
O mínimo que podemos fazer, como Igreja de Cristo, é manifestarmos nossa indignação, lembrando que é nosso dever como cristãos levarmos o Evangelho, a mensagem salvífica de Jesus, ainda que muitas vezes nossos padres não consigam fazê-lo.
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