Posts Tagged ‘ditadura’

Do lava-mãos às mãos dadas

domingo, maio 2nd, 2010

Por Antonio Carlos Ribeiro

A decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de manter a Lei de Anistia, rejeitando ação que pedia sua revisão, proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), afronta a consciência dos familiares de cidadãos comuns, dos militantes políticos, dos militares e dos agentes públicos que se rebelaram contra o terrorismo de Estado, e os que morreram sob tortura.

A postura dos ministros variou da proposta de desconhecer a ação – do ministro primo do ex-presidente deposto – como se o povo brasileiro não tivesse direito à justiça, à releitura da história recente e ao sepultamento dos seus mortos – ao gesto de Pilatos, o procurador romano da Judeia no primeiro século, que só foi mencionado pela comunidade cristã no Credo Apostólico, para datá-lo – à dignidade de jogar o entulho legal da ditadura no lixo.

O voto da relatoria se mostrou despreocupado com a redenção de qualquer falha de juízo, em qualquer grau, já que o magistrado deixa a função no início do próximo ano. Em boa hora. Voto semelhante em densidade foi o do recém-ex-presidente da casa, de nefasta memória, ao apelar ao caráter eminentemente político, tendência que marcou seu mandato, cuja atuação será lembrada por tentar capturar funções dos poderes legislativo e executivo, falar de temas políticos, perseguir magistrados sérios, emitir opiniões sobre processos em tramitação na justiça e soltar criminosos ricos com extensões de crimes fiscais e terras.

Nefasta memória é também a que foi preservada em lugar dos gritos dos torturados, dos ritos sumários, das negações de direitos – uma excrescência em regime de exceção – e das lágrimas de parentes, amigos e da sociedade, que se viu privada de gente corajosa, culta e com causas.

Ao argumentar com a mutualidade, uma Graça, a ministra que talvez deseje ser tratada com clemência, em nome da possibilidade de erro de funcionários públicos, que aquela ocasião por vezes tornou norma. Assim como a que a apoiou, mesmo observando que a lei é injusta – nesse caso, um pleonasmo – já que o melhor parâmetro de justiça é o que temeram rever.  Mesmo subindo a temperatura em escala Celsius, só havia a razão da bilateralidade da lei, já que em quaquer regime decente a tortura é crime, cuja prática não pode ser submetida à decisão hierárquica. (mais…)

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Oscar Romero e o ato radical de permanecer

quinta-feira, abril 15th, 2010

Por Jonathan Wilson-Hartgrove

Trinta anos atrás, Oscar Romero —arcebispo da Igreja Católica Romana em El Salvador— se tornou um mártir pelo amor à justiça. Embora ele tenha começado como um arcebispo conservador, contrário à teologia da libertação que era popular entre aqueles que buscavam ajudar os agricultores pobres em El Salvador, Oscar Romero experimentou uma conversão radical quando seu amigo, padre Rutílio Grande, foi assassinado como resultado de seu compromisso com a justiça social. Através de homilias semanais numa estação de rádio nacional, Romero defendeu o fim da repressão ao povo salvadorenho, tornando-se ele mesmo um inimigo do governo e dos militares. Por causa de seu testemunho profético, Romero se tornou alvo de assassinato. Enquanto ele estava dirigindo a missa no dia 24 de março de 1980, foi baleado e morto. “Um bispo morrerá”, disse Romero prevendo sua própria sorte, “mas a igreja de Deus — o povo — não será destruída”.

A tradição cristã relembra seus mártires não apenas porque fizeram o supremo sacrifício pela nossa fé, mas também porque eles têm algo a nos ensinar. Num tempo em que discutimos e ansiamos por mudança na qual possamos crer, uma lição que aprendemos com o testemunho de Romero é o poder radical da estabilidade ou da capacidade de permanecer fiel ao lugar onde se está (1). (mais…)

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Livro “Luta, substantivo feminino”

segunda-feira, março 29th, 2010

A publicação apresenta perfis de mulheres que foram assassinadas ou desapareceram e de sobreviventes de diferentes organizações de resistência à ditadura militar (1964-85).

A ministra Nilcéa Freire, da Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), e o ministro Paulo Vanucchi, da Secretaria dos Direitos Humanos (SEDH), ambas da Presidência da República, lançaram, no último dia 25, o livro “Luta, substantivo feminino”, que retrata as histórias de mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura militar (1964-85).

O livro reúne os perfis de 45 mulheres assassinadas ou desaparecidas e outras 27 sobreviventes de diferentes organizações de resistência à ditadura. Seus casos foram julgados pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, em quinze anos de atividade. A obra traz informações sobre as circunstâncias em que essas mulheres morreram ou desapareceram. Algumas estavam grávidas, outras amamentavam, todas foram torturadas e, não raro, estupradas – inclusive algumas sobreviventes. (mais…)

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Monsenhor Oscar Romero: trinta anos de um martírio

domingo, março 28th, 2010

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

No dia 24 de março de 1980, às 6h da tarde, o arcebispo de San Salvador, capital do pequeno país da América Central, El Salvador, celebrava missa na capela do Hospitalito, hospital de religiosas que cuidavam de doentes de câncer.  No momento da consagração, o tiro desfechado por um atirador de elite, escondido atrás da porta traseira da capela, atingiu o coração do pastor e matou-o imediatamente.

Calava-se assim a voz que defendia os pobres no regime cruel e sangrento que dominava El Salvador.  E Monsenhor Romero passaria a estar vivo, a partir de então, no coração de seu povo, no qual profetizou que ressuscitaria se  o matassem.  Assim foi, assim é.  Não existe um só salvadorenho nos dias de hoje que não fale com carinho extremo de Monsenhor Romero e não reconheça nele um pai e um protetor.  E não há um cristão que não deva conhecer a vida e a trajetória deste grande bispo, que é exemplar para todos aqueles e aquelas que hoje se dispõem a seguir Jesus de Nazaré. Como homem de seu tempo, Romero é configurado pela formação que recebeu como seminarista e sacerdote.  Uma formação dada por uma Igreja pré-conciliar, onde a vivência da fé e a prática da religião são concebidas como um tanto desvinculadas da vida real e cotidiana das pessoas.  Seu caminho será extremamente coerente com o caminho cristão nesses mais de 2000 anos de história. A fé cristã foi desde seus começos uma fé no testemunho de outros. É uma fé de testemunhas e nem tanto de textos. As testemunhas continuam sendo os melhores teóricos da fé que professamos e que desejamos comunicar.  Nesse sentido, continuam sendo os teólogos primordiais. Monsenhor Oscar Arnulfo Romero entra nessa categoria de testemunha e teólogo primordial.  Seu testemunho de vida e sua morte iluminaram e continuam iluminando o caminho e a vida de várias gerações.  Enquanto era padre, Oscar Arnulfo Romero era um sacerdote de corte tradicional, que exercia sua pastoral mais ao interior da Igreja, celebrando missas, distribuindo sacramentos, organizando sua diocese.   Devido a seu perfil tranquilo e não conflitivo  foi designado pelo Vaticano como bispo no conflitivo país de El Salvador.

A segunda conversão de Monsenhor Romero, conversão à causa dos pobres e dos explorados – uma classe de maioria nas terras de El Salvador – ocorreu depois de sua nomeação para as funções de bispo. Olhando mais de perto essa conversão, podemos ver que é perfeitamente coerente com o itinerário de um homem honrado e bom, cujo coração se mantinha aberto à missão recebida e à vocação sentida no coração. E sobretudo, aberto ao Deus em quem acreditava e ao qual tinha consagrado toda sua vida , assim como ao povo ao qual prometera servir como pastor. (mais…)

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Mais três somam-se à relação de mortos por motivos políticos

quinta-feira, dezembro 24th, 2009

Pelo menos três militantes da Frente Nacional de Resistência contra o golpe de Estado no país foram mortos na última semana, denunciou o Observatório para os Direitos Humanos do Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai).

Carlos Roberto Turcios, Carlos Alberto Valenzuela, 52 anos, e Vidal Martínez, 40 anos, aumentam a lista macabra de assassinatos políticos em Honduras.

O corpo de Turcios foi encontrado no sábado, 19, no município de Choloma, depois de ter sido seqüestrado. Ele estava desaparecido há vários dias. (mais…)

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“Batismo de Sangue” na PUC-Rio

segunda-feira, novembro 16th, 2009

Projeção do filme Batismo de Sangue e debate com Frei Betto.
Quarta, dia 18, às 18:30 h na PUC-Rio: sala K102.

Olha aí o trailer.

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Dominicanos denunciam repressão violenta em Honduras

terça-feira, setembro 29th, 2009

Por Antonio Carlos Ribeiro

Tegucigalpa – A Ordem dos Dominicos Hondureños, através do Frade Óscar Vásquez, denuncia atos de violência do regime militar golpista. Os veículos de imprensa, rádio, televisão e internet sofrem suspensão, boicote e intervenção. Os aeroportos estão fechados e controlados pelos militares. A Polícia Preventiva e o Exército estão perpetrando golpes, mal-tratos, detenções, torturas e ataques às instituições da sociedade. Um estádio em Tegucigalpa está sendo usado como prisão para insurgentes e lugar de torturas para os oponentes do levante militar e do governo liderado por Roberto Micheletti.

A carta do confrade hondurenho foi distribuída à imprensa por Frei Betto, jornalista, escritor e frade da Ordem de São Domingos, conhecido por sua atuação contra a ditadura no Brasil e na América Latina. O documento dos Hermanos de la Provincia [San Vicente Ferrer, na América Central], enviado pelas irmãs e irmãos da Família Dominicana de San Pedro Sula, de Honduras, denunciam o agravamento da violência do governo golpista contra a população e a ameaça de cortar a distribuição de energia elétrica.

Os religiosos dominicanos pedem que “façam circular mensagens, pronunciamentos, chamados solidários, ações concretas e comunicações telefônicas, com o objetivo de gerar pressão e apoio internacional para que a repressão não avance mais do que já está”.

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Argentina: o grito dos desaparecidos da ditadura

terça-feira, agosto 25th, 2009

Por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Não apenas por ser casada com um argentino, portenho legítimo e militante, meu encanto por Buenos Aires existe e se mantém inalterado ao longo dos anos.  Trata-se de uma cidade com charme europeu e identidade latino-americana em rara combinação de cultura, beleza, sofisticação, inteligência e umas ruas onde é delicioso passear, olhar a arquitetura, comer bem e barato.

Conheço igualmente algo da Argentina profunda.  Não apenas a turística e bela Bariloche, mas outros recantos da paisagem majestosa da Patagônia, além de cidades do interior: Mendoza, Salta, etc. Muito diferentes da capital, são no entanto estas cidades argentinas coerentes com a identidade do país e com o alto nível de educação de seu povo.

Por tudo isso, nunca deixa de chocar-me como os anos da ditadura militar conseguiram ser tão cruéis e sangrentos neste país de tanto desenvolvimento e com um povo tão politizado.  Em recente viagem, trouxe de lá um livro que é o pungente relato de uma missionária francesa que escapou da morte fugindo para a França no último minuto. (mais…)

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Homenagem a Elisabeth Kaesemann, vítima da ditadura Argentina

segunda-feira, abril 27th, 2009

Antonio Carlos Ribeiro*

A Associação Alemã de Hispanistas prestou homenagem à socióloga alemã12758PP301.jpg Elisabeth Kaesemann, assassinada em 1977 pela ditadura militar argentina, em Buenos Aires. A cerimônia póstuma foi celebrada no dia 25 de março, no cemitério de Lustnau, na cidade de Tübingen, Alemanha.

Elisabeth, uma das 30 mil vítimas das Forças Armadas da Argentina, que comandou o período mais cruel da ditadura entre 1976 e 1983, era filha do teólogo e biblista luterano Ernst Kaesemann. Ela foi morta num quartel militar, com três tiros nas costas. O corpo foi reclamado pelo pai, entregue pela ditadura e sepultado no dia 16 de junho de 1977. A cerimônia, presidida pelo teólogo Jürgen Moltmann, provocou solidariedade e comoção, levando-o a registrar: “nunca me foi tão difícil pregar um sermão fúnebre”.

O prefeito de Tübingen, Boris Palmer, enviou mensagem destacando o compromisso de Elisabeth com os marginalizados da América Latina, observando que, por causa deste espírito solidário, sua cidade mantém acordos de irmandade com cidades do Peru e da África.

Ulrich Kaesemann, irmão de Elisabeth, destacou que ela conheceu a Bolívia e o Peru, decidindo fixar-se na Argentina, com a intenção de ajudar os mais carentes. Ela foi detida por membros das forças armadas em 1977. Seus pais solicitaram apoio do governo, à época a República Federal da Alemanha, para obterem sua liberdade. Mas, “a resposta foi o desinteresse, já que não queriam imiscuir-se nos assuntos de outros Estados”. A razão verdadeira, denunciou o irmão, é que o governo alemão, dirigido pelo popular primeiro ministro Helmut Schmidt, se interessava mais pelos ganhos econômicos que as empresas alemãs estabelecidas na Argentina negociaram com o governo militar.

A extradição do general Jorge Rafael Videla e do ex-almirante Emilio Eduardo Massera para Alemanha foi solicitada em 2003 pelo Tribunal de Nüremberg, para que sejam acusados pelo assassinato. Em 2008 o pedido de extradição foi recusado pela Corte Suprema da Argentina. O governo da primeira ministra Angela Merkel tem a expectativa de que seja aberto este ano o processo penal pelo assassinato da socióloga, para o qual se constituiu parte acusadora.

O Ministério das Relações Exteriores da Argentina reconheceu, em março de 2006, o espírito solidário e o compromisso de Elisabeth Kaesemann com as vítimas da ditadura e decidiu incluí-la na lista de religiosos e religiosas de diversos credos, vítimas do terrorismo de Estado. Sua vida e trabalho foram lembrados com uma placa de mármore fixada e uma árvore de oliveira plantada na praça San Martín, de Buenos Aires.

* Teólogo e jornalista, professor de Comunicação Social na FIAVEC e doutorando em Teologia na PUC-Rio

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