Por Paulo Cesar Giordano*
Houve uma época, lá pelo finalzinho dos anos noventa, início do segundo milênio, em que peregrinos brasileiros eram “figurinhas fáceis” no Caminho de Santiago. Paulo Coelho abriu a porta e muita gente aceitou o convite: vamos lá embora prá Compostela, ver que lance maluco é esse de peregrinação!
E foi aí que, precisamente, nascia um imaginário jacobeo todo especial para nós aqui do Brasil. Gente morena e bronzeada atravessando o mar disposta a percorrer centenas de quilômetros numa terra distante, abrindo mão de conforto e lazer só para dar um abraço no Apóstolo Tiago. Foi mais ou menos assim que aconteceu. Primeiro foi um, depois foi outro, depois mais um… e quando a espanholada percebeu, uma invasão brazuca tomou conta do Caminho.
Essa brasileirada, no começo, chegou a assustar um pouco os espanhóis mais tradicionais. E por que isso? Bem, você tem que imaginar a seguinte situação: já é meio esquisito para o padrão dos espanhóis que vivem à margem da rota jacobea ver passar pelas portas de suas casas um tipo de gente diferente dos estrangeiros branquelos que há gerações passam por lá: alemães, franceses, holandeses e belgas, em sua maioria, além dos nativos, claro.
Os europeus, para peregrinar, já saem andando da porta de suas casas, não precisam atravessar o mar para isso, mas os brazucas, não. Além disso, chegam ao Caminho “apadrinhados” por um escritor praticante de bruxaria, que foi obrigado, depois de alguns mal-entendidos, a mudar algumas passagens de sua obra onde afirmava que um padre e uma hospitaleira francesa eram bruxos. Uma bobagem para nós, mas não para eles que guardam na memória uma amarga passagem pela Inquisição, certo? Certo.
Daí que, aqueles que foram no embalo do mago, voltaram de suas viagens cheios de coisas prá contar prá gente. Alguns escreveram suas memórias, publicando seus diários de viagem e a coisa toda virou uma festa: paulinhos coelhos e paulinhas coelhas mexendo com a cabeça dos moços e das moças cheios de vontade de ir atrás dos seus sonhos, suas espadas, seus segredos templários e discos voadores imaginários. Tem gnomos e duendes lá? Tem sim, e cães amaldiçoados pelo capeta, e bruxas cheias de poderes e poções, e anjos da guarda disfarçados de pastores. Uma doideira esse tal de Caminho de Santiago, diriam alguns.
Parece exagero? E é, claro, mas só até certo ponto, porque de fato essa salada místico/esotérica por um bom tempo fez parte de tudo aquilo que uma pessoa comum associava ao Caminho. Não que isso tenha acabado, mas podemos dizer que essa imagem já não vende com a mesma força de outrora o “produto” Caminho (e nem vou entrar nessa discussão porque não me interessa mesmo).
Muitos relatos de viagem foram publicados desde o Diário de um Mago. Mais de uma centena, o que me parece um número bastante razoável. Dessa primeira leva de peregrinos escritores, cinco foram mulheres. É sobre elas que quero escrever dessa vez. (mais…)
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